BlogCerebelo
Repensar Sem categoria

Wabi Sabi: A transitoriedade de tudo que existe

wabi sabi

“Existe uma fissura em tudo; é assim que a luz consegue entrar”, disse Leonard Cohen. A essência da natureza é a busca pelo equilíbrio entre simetria e assimetria: todas as coisas do mundo parecem seguir as mesmas regras, mas nunca da mesma forma. E nem poderia ser, pois a natureza se adapta – ela prefere aplicar suas regras dentro das circunstâncias do que o contrário. Se a ideia parece abstrata demais, pense duas vezes – talvez você esteja sofrendo justamente por não conseguir compreender o que isso significa. Os japoneses resumiram essa compreensão em uma expressão: Wabi sabi. Mas o que isso significa?

Não existe uma tradução precisa. Wabi está relacionado com uma simplicidade rústica, um “frescor” contemplativo, uma quietude da mente. Já Sabi conota o específico carisma provocado pela idade, quando a vida de alguém ou de alguma coisa é evidenciada pelas marcas de seu envelhecimento. A ideia é oriunda da zen-budismo, uma das correntes filosóficas mais importantes da história do Japão, bastante conhecida por frisar e relembrar constantemente o aspecto transitório de todas as coisas. Inicialmente, wabi sabi estava inserido dentro do contexto cultural tradicional de uma tradição japonesa de austeridade, mas, com o tempo, adquiriu uma interpretação mais positiva – alguns diriam até otimista.

wabi sabi
Zen Budismo ensina que nada permanece nesse mundo.

Vivemos em um mundo e um tempo que tem sua razão de ser. Nunca produzimos tanto, nem nunca fomos tão prósperos enquanto espécie. Comparado com eras passadas, nunca houve tão pouca fome e guerra no mundo como no último par de décadas. Entretanto, estamos longe de uma utopia, porque mesmo esse modo de vida tem um custo: produzimos muito e fazemos muito; mas exatamente por isso damos pouquíssimo valor ao que produzimos e fazemos. Se não tem mais uso, jogamos fora. Se está quebrado, compramos outro. Se já não nos apetece, descartamos.

O maior problema é que nossa atitude em relação aos bens materiais se estendeu às relações humanas – passamos a dar tão pouco valor uns aos outros que, apesar de toda a paz e dos recursos tecnológicos de que fruimos hoje, pouco conseguimos nos conectar. Vivemos em um mundo e um tempo que tem sua razão de ser – mas que é acelerado e descartável.

O conceito de Wabi Sabi nos lembra da impermanência das coisas, para aprendermos a apreciar e valorizar o mundo ao nosso redor

De muitas formas, wabi sabi é a oposição a isso: é a desaceleração que permite a contemplação, e nessa contemplação encontrar valor em todas coisas, não apenas no que é novo ou novidade. É entender que tudo aquilo que persiste ao tempo acumula em si uma beleza que a mão humana não é capaz de produzir; uma beleza oriunda da resignação, da compreensão de que tudo tem seu tempo. Richard Powell resume bem a ideia: “wabi sabi nutre tudo o que é autêntico ao reconhecer três simples realidades – nada perdura, nada está encerrado, nada é perfeito”.

O entendimento japonês assume verdade naquilo que parece contraditório: quando a imperfeição é aceita como beleza, essa imperfeição é necessariamente bela e perfeita. Existe até mesmo uma extensão desse conceito, que é poética de tão bela e profunda: kintsugi. Quando um objeto destruído ou danificado possui um valor afetivo ou histórico grande, os japoneses podem escolher repará-lo através dessa técnica, que consiste em preencher com pó de ouro os remendos feitos no objeto. Para eles, as rachaduras ou marcas do tempo falam sobre sua história – algo tão precioso que só pode ser representado simbolicamente por algo valioso como o ouro.

wabi sabi
Kintsugi

No ocidente, onde somos herdeiros do ideal transcendental e imortal de beleza absoluta platônica e da busca pela imortalidade da alma do cristianismo, aceitar o fim e as falhas que se sucedem antes dele parece desistência, ou de alguma forma uma atitude moralmente reprovável. Se trabalharmos mais, podemos fazer e ser melhores, até o ponto em que seremos perfeitos. E por nunca conseguirmos, sofremos. Na mentalidade do materialismo contemporâneo, algo só pode ser perfeito se conseguir vencer o tempo.

Wabi sabi diz para nós tomarmos o caminho contrário – ao invés de descartar tudo o que você fez até hoje porque não considera perfeito, pare, contemple e observe tudo o que de bom que você desenvolveu e a maneira como evoluiu através também dos erros cometidos pelo caminho. Nossa existência é imperfeita – se não fosse, não teríamos propósito para existir. Isso é wabi sabi: uma conexão mais direta com a história que existe nas cicatrizes dos nossos corpos, mentes e almas, e que nos lembram do que realmente significa “viver”.

Curiosamente, o wabi sabi se tornou mais conhecido do grande público ocidental quando se tornou uma “tendência” de decoração em casas de pessoas modernas ou mais abastadas. É uma nova moda. E como toda moda, paradoxalmente, wabi sabi cairá em desuso, será descartado e substituído. Mas não importa. Wabi sabi significa também desenvolver o dom da paciência, pois assim como os objetos valorizados por esse conceito, é preciso tempo para compreender os próprios erros.

Wabi sabi permanecerá. Pois entende que nada é permanente.

______________________________________________________________________________________

Curtiu esse texto? Que tal dar uma olhada nessa e em outras estampas?

Clique e confira!
Camiseta Wabi Sabi – Clique e confira!

Artigos Recentes

Espaço, a fronteira final – na realidade e na ficção!

blogcerebelo

Celebre a Terra – A herança de Carl Sagan para o mundo!

blogcerebelo

Escola de Atenas – No Twitter!

blogcerebelo

1 comentário

Deixe seu comentário