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Han Solo e a verdade sobre os parsecs!

Todos nós amamos Star Wars. A franquia que, na época desse velho nerd, ainda era chamada de “Guerra nas Estrelas” (e tinha mais charme, convenhamos…). Não é possível saber exatamente o que nos tira do sério com essa maravilhosa saga: as roupas incríveis, os sabres de luz, o sorriso do jovem Han Solo, qualquer cena em que Yoda esteja presente… É simplesmente tudo muito legal.

Maaaas… muita gente ainda se confunde com a série. Como por exemplo, acreditar que Star Wars se trata de um exemplar de ficção científica. Você pode dizer “bem, se tem naves espaciais e raios laser, só pode ser ficção científica, oras!” Hmmm… Não é bem assim. A ficção científica como a gente conhece recebe esse nome por um motivo – a estrutura do seu enredo tem que girar em torno de uma motivação científica específica.

Porque, se você parar para pensar, tudo envolve alguma coisa de ciência: “Tubarão” poderia ser ficção científica porque envolve a anatomia de um animal – realmente assustador, por sinal; assim como até “Conduzindo Miss Daisy” poderia envolver ciência, dada a maravilhosa engenharia do carro guiado por Morgan Freeman, que não precisa ser reabastecido, aparentemente… (Sério, se vocês soubessem como bebe um Hudson Commodore, também achariam que o filme é pura ficção científica…)

Sendo assim, Star Wars não é bem ficção científica, porque não se baseia em princípios científicos para funcionar. Quer dizer, qual é o princípio científico da Força? (Se você disser “midi-chlorians”, por favor, saia da nossa loja.) Não rola, né? Star Wars é o que nós costumamos chamar de Space Opera ou Sci-Fantasy – um tipo de ficção fantástica que envolve elementos futuristas, mas que não se baseia necessariamente em princípios científicos. Pura diversão, sem compromisso. O negócio é estourar a pipoca e curtir as espadas de laser e luzinhas coloridas.

parsec
Ah sim, e isso também não é laser…

O único problema em Star Wars é que esqueceram de avisar Han Solo disso. Logo que surge em cena, ele já mostra que não costumava aparecer nas aulas de física do colégio. Ao tentar conquistar a atenção de um potencial cliente idoso e seu jovem companheiro de viagem, o mercenário manda essa: “Você nunca ouviu falar da Millenium Falcon?! É a nave que fez o percurso de Kessel em menos de 12 parsecs”.

Para o leitor leigo, parece não haver muito problema aqui. É só um termo técnico aleatório de física com um pouco de ficção. O percurso de Kessel, no cânone de Star Wars, é uma rota rápida e obscura, usada por contrabandistas, criminosos e mercenários; só gente bacana. E o lance de Solo se gabar tanto é porque, ainda no cânone de Star Wars, todas as naves tem um motor de hiperespaço que funciona de modo parecido – ou seja, o fato da Millenium Falcon conseguir fazer esse percurso mais rápido que outras naves é, na verdade, bem impressionante.

Só tem um problema neste feito impressionante: parsec é uma medida de distância, não de tempo.

É, é isso aí. Não faz o menor sentido. O que Han Solo disse para Obi-Wan e Luke é mais ou menos como dizer: “combinei de almoçar com o Roberval aos 13 quilômetros da tarde”. Não faz o menor sentido! Complicado para um piloto não saber diferenciar tempo de distância. Pobre Chewbacca!

É, ninguém caiu nessa, Han. (Legendado em Inglês)

Han Solo esteve errado sobre os parsecs esse tempo todo – muito errado

Mas afinal, o que diabos é um parsec? Ok, apesar de ter brincado com o pobre Han e sua formação científica, talvez não seja tão simples assim. Vamos nos aventurar no campo da ciência para gente grande.

Todo mundo já ouviu falar de “ano-luz”, a medida de distância usada com base no percurso realizado pela luz no período de um ano. Embora a gente veja “ano-luz” em artigos de jornal, filmes, etc, essa medida não é muito exata. Porque o espaço não é exatamente vazio; embora não sustente vida, ele está permeado, de cima a baixo, por forças fundamentais que regem o universo, além de um sem-número de partículas voando por aí – e tudo isso isso interage com a luz, fazendo com que, na prática, sua velocidade varie. Ou seja, um ano-luz não serve para os cálculos precisos dos físicos.

Muito bem, para essa necessidade de precisão, foi estabelecido o parsec. A palavra parsec vem da contração de uma expressão astrofísica em inglês: parallax of one arcsecond (par+sec). Um parsec é uma medida colossal, quase incompreensível na prática. Um parsec equivale a 3.26 anos-luz – cerca de 30 TRILHÕES de quilômetros, ou, aproximadamente, a distância coberta pelo cheiro de um saco aberto de Cheetos.

O cálculo que define um parsec é BEM complicado; coisa pra gente com pós em astrofísica. Ou seja, não eu. Mas é mais ou menos assim: trata-se da distância em que uma unidade astronômica subtende um ângulo de um arcosegundo. Ei, EI, NÃO VÁ EMBORA. Calma, eu explico.

É uma técnica de triangulação. O físico Felipe Sérvulo descreve da seguinte forma:

“Para encontrar a distância de uma estrela, os astrônomos usam um método chamado de triangulação. Você pode tentar isso agora. Mantenha o dedo na frente de seu rosto, se concentre em algo na sua frente, e feche um olho. Agora abra o olho que estava fechado e feche o outro. Se você alternar os olhos, você vai notar que o dedo parece dançar de um lado para o outro na frente de seu rosto. O movimento é, naturalmente, uma ilusão. Seu dedo não está se movendo. Cada olho vê o dedo de um ângulo diferente, de modo a localização do dedo, em relação ao material no fundo, parece diferente.

Esta mudança aparente é chamada de paralaxe, do grego parallaxis ou “alteração”.

parsec
Um parsec é a distância de uma estrela que se desloca por um segundo de arco de um lado da órbita da Terra para o outro. Um parsec igual a 30 trilhões de quilômetros ou pouco mais de três anos-luz. Imagem via Wikipedia utilizador Srain.

Se você medir o ângulo sobre o qual o dedo parece mover-se, você pode descobrir o quão longe o seu dedo está do seu rosto. Da mesma forma, os astrônomos medem ângulos para encontrar as distâncias para estrelas. Em vez de piscar os olhos, no entanto, os astrônomos movem a Terra. Ou melhor, nós usamos o fato de que a Terra se move ao redor do Sol.

Por exemplo, se observarmos uma estrela em janeiro, e depois analisarmos novamente em julho, a Terra terá percorrido meio caminho ao redor de sua órbita. Nós estamos olhando para a estrela de dois locais aproximadamente a 300 milhões de quilômetros de distância. Se a estrela estiver razoavelmente próxima, ela parecerá mover-se ligeiramente. O ângulo de paralaxe, combinado com a distância média Terra-Sol (ou uma unidade astronômica), permite que os astrônomos calculem a distância até a estrela.

Estes ângulos são minúsculos. Eles são muito pequenos para serem uma unidade prática de medição. Ângulos de paralaxe são tipicamente medidos em segundos de arco. Há 3.600 segundos de arco em um grau. Para fornecer alguma perspectiva: um segundo de arco é equivalente à largura de um cabelo humano médio visto a partir de 20 metros de distância.

E aqui está como chegamos ao parsec como uma unidade de distância: um parsec é a distância a um objeto cujo ângulo de paralaxe é um segundo de arco (abreviação de paralaxe de um arcosegundo, ou arcsecond, do inglês).

UFA! Essa foi difícil. Mas aqui está o significado do maldito parsec sobre o qual Han realmente queria falar. Quão rápido a Falcon fez o percurso de Kessel, nunca saberemos; só o que sabemos é que astrofísica realmente não é o lance de Han Solo.

Da próxima vez, talvez ele deva simplesmente dizer: “Você nunca ouviu falar da Millenium Falcon?! É a nave que fez o percurso de Kessel… bem rápido!”.

Han solo e os parsecs
Pode explicar tudo de novo, por favor?!

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