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Os Sete Samurais – O estandarte da justiça!

sete samurais

O cenário é desesperador: um vilarejo pobre e cheio de pessoas que mal tem o que comer devido aos altos impostos cobrados pelo governo. Em troca, vivem desprotegidos e com medo. E com  razão, já que o vilarejo é constantemente atacado quando a colheita se aproxima. Mas a pobreza provoca a fome até mesmo nos criminosos, e o próximo ataque promete ser o último. O que fazer? O ancião da vila decide por uma alternativa pouco ortodoxa: contratar samurais para protegê-los.

Camponeses contratando samurais. Algo que parece absurdo, mas tempos desesperados pedem medidas desesperadas. Que tipo de samurai se rebaixaria ao ponto de servir meros camponeses? Os mais honrados. Quantos são necessários?

Sete.

Em 1954, estreou a obra-prima de Akira Kurosawa, Os Sete Samurais (Shichinin no Samurai), um jidaigeki (filme de época) que conta a história de sete espadachins que decidem atender os camponeses famintos e evitar o desaparecimento de sua vila. Considerado um dos melhores filmes já feitos, tem uma história complexa e de diversas camadas, e se estende por pouco mais de três horas – que valem cada segundo de atenção. A história é aparentemente simples, mas em seu tempo foi bastante revolucionária – é creditado ao filme de Kurosawa a criação de uma das fórmulas de maior sucesso do cinema: as aventuras em grupo.

sete samurais
Os Sete de Kurosawa!

A maneira como os samurais se unem tornou-se uma inspiração para o cinema do mundo todo, dando origem a releituras de cineastas hollywoodianos, que atingiram um sucesso inaudito, como o assumido remake Sete Homens e um Destino, de John Sturges, até o improvável Vida de Inseto, da Pixar. Não, não estamos malucos. Assista a produção de Kurosawa e a animação na sequência e Você vai entender.

O filme também reúne uma espécie de “dream team” do cinema japonês da época. Não apenas com Kurosawa atrás das câmeras, mas contando também com atores como Seiji Miyaguchi, Minoru Chiaki, Daisuke Kaito e Kamatari Fujiwara; além, é claro, dos dois maiores astros da história do cinema japonês – e frequentes colaboradores de Kurosawa – Takashi Shimura e Toshiro Mifune. Uma curiosidade é que o filme inicialmente se chamaria Os Seis Samurais, com Mifune interpretando Kyuzo, o mestre em combate.

Entretanto, Kurosawa achava que a história de seis samurais austeros se tornaria chata. Eles precisavam de alguém que fosse “fora da caixa”. O diretor então tomou uma decisão que era frequente e que sempre dava certo: dirigir-se a Mifune e dizer a versão japonesa equivalente à“go crazy”. Com total liberdade interpretativa, Mifune constrói um dos mais cativantes personagens da história do cinema, parte nevrálgica da crítica social feita por Kurosawa em seu filme.

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Mifune entrega uma atuação visceral em Os Sete Samurais!

A obra-prima de Akira Kurosawa, Os Sete Samurais, atravessa as décadas com a força de sua mensagem

Fato é que, apesar de todas as referências pop/cinematográficas que podem ser feitas, o filme se sustenta por conta própria. Mais do que isso, permanece agudamente relevante até hoje. A crítica social e política feita por Kurosawa em Os Sete Samurais pode muito bem ser aplicada em nossos dias. Na história, nós inicialmente temos todos os lugares bem definidos – os criminosos são os vilões, os camponeses são as vítimas e os samurais, claro, os heróis. Entretanto, com o desenvolvimento da narrativa, esses papéis aos poucos vão se invertendo e se transformando – em determinado ponto, os próprios samurais são compreendidos como os verdadeiros vilões da história, em uma trama que aponta para a maneira como a mobilidade social nula de uma sociedade estratificada – como a japonesa feudal – sempre faz dos vulneráveis suas vítimas mais prejudicadas.

Exatamente por isso, o estandarte dos Sete representa muitas coisas – um símbolo de resistência, mas também de resignação; de união, mas também de rebeldia. É uma desconstrução do mito histórico do samurai mas que, paradoxalmente, o reconstrói de maneira mais humana e, por isso, ainda mais heróica.

Curiosamente, o filme quase não aconteceu. Para realizar sua visão, Kurosawa estourou o orçamento algumas vezes e o estúdio Toho, responsável pela produção, fechou as filmagens pelo menos um par de vezes. Com a calma de um samurai e a mente arguta de um rebelde, o diretor sabia que eles voltariam atrás. Preciso como o corte de uma espada.

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Kurosawa, calmo como um samurai.

Em determinado ponto, Kambei Shimada, personagem de Takashi Shimura diz: “ao protegerem uns aos outros, vocês salvarão a si mesmos”. Que o estandarte dos Sete carregue a mensagem de Kurosawa através da história!

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