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Wilhelm Richard “Heavy Metal” Wagner!

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Quando pensamos em Heavy Metal, a primeira coisa que vem a mente é um sujeito mal encarado, coberto de preto, espancando furiosamente seu instrumento, criando um som tão alto que nos surpreende pensar como esse sujeito consegue fazer mais de uma apresentação sem ficar completamente surdo. Mas essa imagem é apenas uma fachada. Na imensa maioria do tempo, os headbangers ou metalheads, como costumam ser chamados (não os chame de “metaleiros”. Não vai ser uma experiência boa para ninguém) são mestres nos seus instrumentos. Estudantes vorazes de música, esses músicos têm um apreço particular pela auto-superação – tocar mais alto, mais rápido e mais forte.

Isso os coloca em contato direto com a improvável associação que fazemos aqui. Afinal, se você leu o título, deve estar se perguntando “o que diabos Heavy Metal tem a ver com Richard Wagner”? Bem, muita coisa. A começar pela associação mais simples: tanto o lendário compositor alemão quanto os enfurecidos mestres das cordas de metal são revolucionários em suas formas de música.

A vida de Wagner se estende pelo século XIX, entre 1813 e 1883, e é também um reflexo dele. Perpassando diversos momentos políticos e sociais, Wagner foi intimamente engajado com movimentos e pensadores que buscavam questionar fortemente o status quo da sociedade européia da época, tendo sido obrigado, inclusive, a se exilar por um bom tempo. Wagner trocou correspondências particulares com Bakunin, era ávido leitor de Schopenhauer e foi uma das maiores influências de Nietzsche. Agora pergunte para qualquer fã de heavy metal sobre algumas de suas influências literárias. Se nenhum dos nomes acima for mencionado, acredite: ou ele acaba de se tornar fã, ou nunca foi muito a fundo na coisa toda.

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Richard Wagner!

Pois os fundadores do Heavy Metal, os britânicos do Black Sabbath, são a síntese desses interesses: sua música questiona estados opressores, critica sistemas organizados de religião e definitivamente não é o estilo musical mais otimista. O Heavy Metal nasceu como uma poderosa crítica, feita por quatro rapazes que não tinham medo de inovar. Mas a parte realmente chocante é que o guitarrista da banda, Tony Iommi, perdeu as pontas de seus dedos manuseando uma máquina industrial.

Para compensar, afrouxava as cordas de sua guitarra, criando um som mais grave, reforçado pela distorção, que ainda não era algo totalmente absorvido pelos fãs de rock. Não obstante, Iommi – com a deliberada intenção de chocar – baseava seus já pesados riffs em trítonos, carinhosamente apelidados de “acordes do demônio” – o rapaz não brincava em serviço. Um trítono é um intervalo entre alturas de duas notas musicais que possua exatamente três tons inteiros. O efeito cria uma das mais complexas dissonâncias possíveis na música ocidental.

Wagner chocou sua época tanto quanto o Heavy Metal chocou a nossa

Adivinha quem também gostava de chocar seu público? Wagner não ficaria satisfeito enquanto não pudesse dar para seu público uma experiência musical única – e isso significava romper com a maçante padronização musical vigente no período. O estilo posterior do alemão introduziu um sem-número de novas ideias de harmonias e estruturas operísticas, mas sua real ousadia estava na exploração do sistema tonal, ultrapassando essa barreira e tocando os fundamentos do atonalismo – adiantando uma tendência que tomaria a música erudita de assalto no século XX. Alguns historiadores da música ratificam o início do música clássica moderna como sendo as primeiras notas da ópera Tristão e Isolda – convencionou-se, inclusive, a chamar essas notas de “acorde de Tristão”. O atonalismo não ganharia muitos fãs na música popular até – é claro – a chegada do Heavy Metal. Algumas bandas ainda na ativa, como o Dream Theater, ajudam a explorar ainda mais esses limites, misturando as cordas de aço com esse sofisticado conhecimento musical.

Seguindo nessa improvável comparação, Wagner também não sentia que os recursos disponíveis na sua época estavam à altura das suas necessidades – embora não tenha precisado perder nenhuma parte de seus membros para isso. Para poder imprimir um caráter realmente épico em suas óperas, o compositor abalou as estruturas do estilo musical – literalmente. Ele sentia que nenhuma casa de ópera estava preparada para receber seus épicos, então, decidiu construir uma ele mesmo: com a ajuda do rei Luís II da Baviera, seu grande mecenas, construiu o teatro de ópera Bayreuth, que não apenas dispunha da melhor acústica da Europa na época, como também algumas inovações estruturais. Entre elas, o gloriosamente chamado “Abismo Místico” – Wagner criou um fosso em seu teatro, onde condutor e orquestra ficariam, para que o público pudesse concentrar sua total atenção nos cantores.

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Sem Wagner, sem bandas como Amon Amarth.

Conceitualmente, Wagner também foi responsável por reacender o interesse do grande público pela mitologia nórdica-germânica – tema adotado com carinho por 11 entre 10 fãs de heavy metal. De Led Zeppelin até toda uma vertente chamada de viking metal, a mitologia de Thor e Odin é responsável por um grande número de riffs furiosos, como também é a base para a maior obra de Wagner: a tetralogia Der Ring des Nibelungen, O Anel dos Nibelungos. Com esse tema em mente, Wagner expandiu o tamanho da sua orquestra de forma jamais vista, incluindo um enorme números de metais; em O Ouro do Reno, primeira das quatro óperas do Nibelungo, são necessárias 18 bigornas.

Não obstante, como dito, Wagner elevou o protagonismo dos cantores a um novo patamar. Não apenas seus protagonistas praticamente não saíam do palco, como cantavam o tempo todo. Sempre tenores, estes precisaram desenvolver uma condição física e técnica extraordinária para executar as peças wagnerianas. Mais ou menos como tentar imitar Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden. Tente imitar suas estripulias por mais de cinco minutos e falhe miseravelmente.

Portanto, é justo afirmarmos que, por inúmeros motivos, Richard Wagner é o tataravô espiritual do Heavy Metal! E não tome por nós: Joey DeMaio, do Manowar, chamou Wagner de “Pai do Heavy Metal”, o Rammstein aponta Wagner como uma de suas maiores influências; a “muralha de som” criada por Phil Spector e aprimorada por Devin Townsend, aclamados como gênios do metal, é diretamente inspirada na visão wagneriana de música.

Wagner morreu em 1883, e foi enterrado num túmulo que ele mesmo construiu – nada mais heavy metal possível. Mas o heavy metal continua vivo, forte e alto – inspirado por Wagner e muitos outros.

Horns Up! A ópera vai começar!

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