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Escola de Atenas – No Twitter!

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É claro que nós vivemos na melhor época da nossa espécie. Nunca – no geral – se viveu tanto, com tanta qualidade e com tanta segurança. Eu sei que você pode achar que não, mas a humanidade evoluiu bastante. Isso não significa que nossos tempos sejam perfeitos. Existem algumas qualidades que existiam no mundo antigo, que parecem ter se perdido, e que podiam ser úteis para nós. O mundo moderno é definido pela aceleração e pela fragmentação. Quanto mais rápido e mais curto, melhor. Até nossa comunicação se tornou assim. Quer maior símbolo do mundo contemporâneo do que o Twitter? Quando líderes mundiais e personalidades entendem esse veículo como uma forma de comunicação viável, estão dizendo muito sobre o tempo em que vivemos. Não exagero dizer que nosso ritmo se tornou tão intenso quanto nossa atenção se tornou frágil. Na famosa pintura de Rafael, A Escola de Atenas, nós temos um vislumbre de um tempo em que as coisas nem sempre foram assim.

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Como você se sentiria estudando numa escola com esses gênios?

Rafael Sanzio viveu durante o período do alto Renascimento, ali entre os séculos XV e XVI. Junto com Da Vinci e Michelangelo, formava a tríade que melhor representava os ideais do período – um verdadeiro dream team do pincel, que ainda é lembrado 500 anos depois de seus trabalhos. Chupa essa manga, Michael Jordan. Pra quem fugiu das aulas de história, esses ideais do Renascimento eram uma retomada da valorização da arte e da filosofia, que havia se perdido durante o período medieval – principalmente a arte e filosofia greco-romana. De repente, os velhos pensadores de toga estavam na moda de novo.

Tanto estavam que, quando o então papa Júlio II pediu para Rafael decorar seu apê, ele deu apenas algumas diretrizes: obras que representassem esses valores renascentistas – teologia, poesia, filosofia e leis. Desnecessário dizer qual desses a Escola de Atenas representa né? Na sala chamada de Stanza della Segnatura, Rafael decidiu colocar em uma das paredes todos os mais conhecidos pesos-pesados do período do milagre-grego – e criou uma obra prima para a história.

A Escola de Atenas pode ser um símbolo de solidez geométrica na época da liquidez

De certa forma, essa pintura representa o exato oposto do que o mundo contemporâneo se tornou. Note como, na pintura, os personagens inseridos nela parecem tomar todo o tempo do mundo para discutir questões importantes da maneira mais aprofundada possível. Embora os únicos personagens realmente identificáveis na peça sejam aqueles que estão no centro – Platão à direita e Aristóteles à esquerda – todas as figuras são interpretadas por historiadores como representado outros grandes pensadores da Grécia antiga, como Sócrates, Pitágoras, Zenão, etc. E nós estamos falando de caras para quem expressar uma ideia em 140 caracteres seria virtualmente considerado tortura. Platão e Aristóteles deixaram dezenas de livros para expressar suas ideias – e esses foram apenas os que chegaram até nós depois de mais de 2 mil anos. Acredite – você não quer disputar um textão de Facebook com eles.

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Alguns destaques na pintura!

Sendo assim, nesse espírito, tire cinco minutos do seu dia para apreciar essa obra genial. Rafael era um mestre da perspectiva. Seu trabalho com sobreposição de planos lineares criam uma sensação de profundidade que faz com que A Escola de Atenas pareça 3D. Não somente isso, mas a iluminação onipresente e o uso de cores vívidas em tons pastéis dá ao todo do quadro uma textura que somente intensifica esse trabalho de perspectiva. É talvez o maior exemplar do estilo conhecido como disegno, uma forma de representação da arte através de princípios racionais, como a geometria.

Mais interessante é pensar o motivo pelo qual Rafael pintou dessa forma: na posição de um espectador vendo a Escola de Atenas, você é levado a sentir que você pode “entrar” na pintura; como se estivesse entrando na cenografia de um palco. Há uma série de planos horizontais em todo o chão ornamentado, subindo os degraus, além dos pilares que sustentam o vão em arco, para dentro de um área coberta por um domo, que é indicada sobre as cabeças de Platão e Aristóteles pela linha curva sob a janela.

O mais importante ponto de escape do afresco está em algum lugar no espaço entre as cabeças de ambos. O uso do céu e da incompletude da arquitetura são indícios de que a Escola de Atenas não se trata de um edifício que de fato existiu no passado, nem foi habitado por humanos ordinários – não existiu, e na verdade, se contarmos todas as figuras especuladas no quadro, dificilmente um terço delas era realmente ateniense, ou mesmo residiu em Atenas. Esse ponto de escape no quadro é um ponto tão especificamente delineado que se trata de um claro gesto do autor de que essa cena se passa, na verdade, em um plano de existência superior.

A própria divisão conceitual do quadro é de um brilhantismo único. Nós mencionamos que Platão e Aristóteles são as figuras centrais do quadro. Platão segura em suas mãos uma cópia do Timeu – o texto é um dos poucos de Platão recuperados pelo Renascimento, e que explica como o universo foi criado por um demiurgo através de modelos, formas, e sólidos geométricos matematicamente perfeitos. Com sua mão direita, ele aponta para cima, indicando que as formas eternas, como os ideais de Beleza, Bondade e Verdade, não são oriundos nem estão neste mundo, mas além, em um reino atemporal de ideias puras.

Já Aristóteles carrega seu livro Ética, que ele negava poder ser reduzido a uma ciência matemática. O pensador, com sua teoria dos quatro elementos, sustentava que toda mudança no mundo da matéria tinha início nas mudanças do mundo imaterial – contradizendo Platão. Aristóteles aponta para baixo, pois, em sua filosofia, a única realidade é aquela que nós podemos experienciar. Seu livro Ética trabalha justamente questões “mundanas”, como relacionamentos, justiça, amizade e o governo do mundo humano e nossa necessidade de estuda-lo.

Horizontalmente, Rafael divide o quadro tematicamente segundo esse princípio centralizado pelos dois pensadores: do lado esquerdo, ao lado de Platão, estão os pensadores, poetas e filósofos abstratos. Os físicos e cientistas mais empíricos estão alinhados ao lado de Aristóteles, compondo um quadro física e conceitualmente dividido de maneira geometricamente perfeita.

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Em alguns aspectos, precisamos fazer o uso da tecnologia no presente encontrar o poder de reflexão do passado.

E não é exagero dizer que, de certa forma, esse quadro representa bem o espírito do diálogo no mundo antigo. Nada de conversas pela metade, agressividade gratuita, ou falácias para sustentar ideologia – na “rede social” do mundo antigo, prevalecia a razão. Ah, um detalhe: Rafael tinha 25 anos quando começou a pintar A Escola de Atenas. Evite se perguntar o que você estava fazendo a essa altura da vida. A resposta é: provavelmente escrevendo alguma coisa no Twitter.

Porque se uma imagem vale mais do que mil palavras… imagine mais do que 280 caracteres.

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